quinta-feira, 15 de maio de 2014

Engraçada

As roupas estão enfileiradinhas no armário fedorento. Eu trouxe minhas melhores roupas mas olho pra elas e vejo camisetas e calças e vestidos camuflados. Tenho 27 anos mas estou com dezoito, me alistando ao exército. Estou em um apartamento na rua Dias Ferreira, no Leblon. É coisa chique morar aqui, me avisam. Por incrível que pareça, foi o aluguel mais barato que arrumei, considerando que é de uma tia de uma amiga e que está tudo velho, rangendo e com um cheiro horroroso que não consigo decifrar. Algo entre o mofado o azedo e o morto.
A privada é marrom. Por que uma privada seria marrom? Quanto tempo eu vou ter que cagar nessa privada marrom? Se eu achar que estou morrendo, qual o melhor hospital do Rio de Janeiro? Pergunto isso para um amigo carioca antes de sair de São Paulo. Ele não entende direito a pergunta, mas porque está ocupado diz logo que tem um chamado “Copa d’or”. Tem laboratório Fleury no Rio? Meu amigo desliga.
Tenho saudades da minha casa. Eu morava em um apartamento pequeno e alugado em São Paulo. A oito quadras da minha mãe. Eu dividia a empregada com minha mãe e, toda terça e quinta, a empregada me trazia algumas comidinhas tipo quibe de forno ou uma quiche de alho poró. Eu visitava minha mãe toda segunda e domingo, dias em que eu almoçava comidinhas como salada de quinua com frango desfiado ou sopa com bastante caldo de carne- para os dias em que fico enjoada mas não posso ficar fraca. Eu me sentia uma super fodona vivendo a vida loucamente no meu pequeno apartamento, comprando minhas próprias camisinhas e meus próprios tomates, mas eu vivia numa porra de uma bolha.
Minha mãe, que veio comigo para o Rio me ajudar com as malas e com a arrumação, me diz “que delícia ter a sua idade e poder morar aqui e poder viver todas essas coisas”. Eu só consigo pensar que, pelos próximos infinitos meses, acordarei cinco da manhã pra fazer um milhão de flexões e me preparar para uma guerra sanguinolenta. Tchau família, vou servir ao país. Lavo a mão.
Amanhã começo uma oficina de roteiro na Globo. Na sequencia da oficina, eles vão me testar em um seriado de humor. A oficina mais o seriado devem dar uns dez meses morando no apartamento com a privada marrom. Talvez nove meses. Talvez um ano. Talvez na sequência eles me testem em outro seriado. Ou em um programa de auditório, o que eu não sei se gostaria. Ou em uma novela, o que eu acho que gostaria bastante. Talvez dure mais de dois anos. Talvez eu morra nesse apartamento, mais precisamente sentada nessa privada marrom. Mas eu também posso ir embora amanhã, se eu quiser. Ou agora.
Que desculpas eu poderia dar para ir embora agora? “Alô, oi, então, minha mãe está morrendo, não posso viver longe dela, ok?. Penso isso quando vejo minha mãe cantarolar e folhear uma revista. Ela me olha e sorri “vai, filha, toma banho”. Quem está morrendo sou eu. Está sol, eu vou escrever histórias pra televisão e emocionar milhões de brasileiros, eu vou morar a poucas quadras da praia. Eu deveria estar feliz. Eu estou nua, toda cortada, sangrando, e o leão me espera lá embaixo pra devorar meu coração. Ele vai chacoalhar suas madeixas douradas e esguichar meu sangue pelos ares. Lavo minhas mãos.
Eu trabalhei os últimos sete anos em agências de publicidade. A cada seis meses eu pedia demissão e ia pra outra e pra outra e pra outra. Assim que eu pegava todos os garotos e homens e tios e estagiários e donos e sócios e criativos e atendimentos bonitos com os quais eu poderia ter algum envolvimento, automaticamente o lugar ficava insuportável pra mim. Foi quando eu percebi que vender sabão não era exatamente divertido. Passar o rodo nos gatinhos fodidos de cabeça sim, era bem divertido. Tá, em algum momento eu achei divertido vender sabão. Eu virei noites e noites pra encontrar a forma mais profunda e engraçada e inteligente de vender sabão. Mas ninguém com um pouco de decência espiritual vê graça nisso muito tempo.
Estou tomando banho agora, pra me arrumar, pra ir para o primeiro dia da oficina de roteiro de humor da Globo. Serei testada e isso sempre me enlouquece. Eu nasci achando que ta óbvio o que eu sou então qualquer teste sempre me soa como algo estúpido. Não tá estampado na minha cara que sou misteriosa, profunda, louca, genial, gente finíssima e hilária? Não. Ok.
Preciso ser engraçadíssima nessa oficina. Preciso ser dez vezes mais engraçada do que eu fui em todos os 683 mil recreios de toda a minha infância e adolescência. Choro tomando banho. Começa com um choro pequeno, só algumas lágrimas tímidas. As lágrimas vão ficando gordas e gordas e gordas. Choro agora desesperadamente e dou pequenos murros no meu peito. Saio do banho antes de terminar o banho, porque estou passando mal de cólica intestinal. Deve ser colite nervosa. Não sei o que quer dizer isso, mas minha avó tinha então eu devo ter. Deixo a privada cheia de espuma de banho e ensopo o chão do banheiro. Não gosto desse banheiro de rodoviária de Cuiabá. Vou ter que morar nele por quanto tempo? Dez meses? Um ano? Que desculpa eu posso dar para ir embora hoje? Quero voltar pra minha casa. Quero voltar pra São Paulo. Minha cidade tem nome de santo. Ela é boazinha. Vou comprar enfeites e revistas e coisas com cheiro bom e almofadas coloridas. Toda pessoa sofrendo compra almofadas coloridas. Volto pro banho. Estou atrasada.
Seu sonho era escrever! Então agora toma esse banho, come alguma coisa, enfia uma roupa e vai. Com nove anos eu escrevi em meu diário “não vejo a hora de sentir dor”. Me assustei quando li isso, já adulta, mas lembrei exatamente o que eu estava sentindo naquele dia que escrevi isso. Eu sentia uma angustia profunda mas eu tinha uma vida ótima de criança cheia de brinquedos e amores e comidas. Então por que aquela angústia desgraçada? Eu queria logo ter um problema bem grande, algum motivo pra sofrer. Pra justificar meu sofrimento eu queria ter motivo pra sofrer. Meu avô, quando dava umas seis da tarde, ligava pra minha mãe no trabalho e avisava “a menina vai começar com as faltas de ar de novo, já falei que pode ser asma”. Dai minha avó se metia, e também ligava pra minha mãe no trabalho “é colite nervosa, são gases”. Dai o cardiologista achava que era o meu prolapso da válvula mitral, mas que isso não era nada. O gastro achava que era bactéria. E o alergologista achava que era alergia à produto de limpeza, por conta de minha rinite, mas que também não era nada. Minha mãe mandava meu avô tirar minha febre. Meu pai perguntava se eu tava vomitando. Eu nem tinha febre e nem vomitava. Mas por dentro eu tinha febre e vomitava e tinha asma e tinha bactérias e estava alérgica e estava tendo uma parada cardíaca. E lá fora estava sol e dava para eu ser feliz.
Coloco um vestido azul cheio de babados. Não uso muito azul e tenho horror a babados. Comprei essa merda de vestido porque o Leblon é cheio de boutiques de novas estilistas cariocas e esse vestido estava na vitrine de umas dessas boutiques de novas estilistas cariocas. Eu quis pertencer. Vai que por osmose me torno alguma coisa menos discrepante nessa cidade. Odeio esse vestido. Ele é a privada marrom em forma de vestido de menina fofa da Zona Sul. Coloco meu Iphone na caixa de som porque preciso ouvir Radiohead. Ele é caolho e diz frases tão dolorosamente bonitas e me acalma. Lavo a mão. Preciso comer alguma coisa porque estou com hipoglicemia.
Enquanto eu tomava banho, minha mãe fez uma massa rapidinha na cozinha. A pia da minha nova cozinha caindo aos pedaços está cheia de formigas e minha mãe me fala o nome de um negócio bom pra isso. Não guardo o nome porque isso é problema da empregada. Que empregada? A Maria ficou em São Paulo. E você, morando em outra cidade, fazendo um curso, sem trabalhar, não tem mais dinheiro nenhum. Você é a sua nova empregada agora. Então qual é o nome do remédio que mata formigas, mãe? O nome é detergente, minha mãe fala querendo chorar. Minha mãe acaba de perceber que eu tenho quatro anos de idade e que talvez não seja muito seguro me deixar abraçar o mundo. Preciso comer porque estou passando mal. Mas macarrão vira açúcar muito rápido e isso não é bom. Quando se é hipoglicêmica e se está precisando de açúcar não se pode ingerir açúcar nem muito rápido e nem em muita quantidade. Ao mesmo tempo, se eu comer pouco ou devagar, talvez eu passe mal daqui uma hora. Lá fora todas as pessoas do universo não complicam suas vidas e caminham decididas e fortes ao sol. Eu lavo as mãos.
Termino de comer e estou passando muito mal. Estou passando muito mal. Estou passando muito mal. Meus pensamentos entram no looping da crise de ansiedade e repetem em mantra as frases que me levam da realidade. Minha nuca travou daquele jeito que olhar pro lado é um sacrifício. Quando não consigo olhar pro lado sempre penso o quão egocêntrico é sofrer. Penso, penso, penso e penso. E se eu não for engraçada? E se eu chegar lá e vomitar em cima da mesa? E se eu tiver uma caganeira na privada do Projac e só no dia seguinte eles me encontrarem morta caída no chão do banheiro? Morta sem as calças e cagada e vomitada. Não seria engraçado. E morta eu definitivamente não conseguiria a vaga de roteirista ao final da oficina.
Minha mãe se despede e chama um taxi. Daqui a dez minutos, quando o taxi chegar e levar minha mãe pra São Paulo, eu serei oficialmente adulta e sozinha e fodida e sangrando e chamando os leões. Eu não tenho nenhum amigo no Rio. Eu não tenho nenhum parente no Rio. Eu não tenho nada no Rio, além de mim. E mim, coitada, é bem maluca. Minha mãe diz uma daquelas frases que não querem dizer nada, típicas de quem está nervosa, do tipo “vai lá e mostra pra eles” ou “vai lá e arrasa!” ou “um dia vai ter valido a pena”. Eu abraço minha mãe. Ela vai embora. Eu tiro o vestido azul. Eu lavo as mãos. Eu dou tchau da janela pra minha mãe.
Em menos de um mês eu mudei de profissão, emprego e cidade. Eu sinto o maior medo e a maior tristeza que já senti em toda a minha vida. Mas agora eu vou lá, mostrar que sou super engraçada.

Alto

Eu não tenho medo de voar. Eu tenho medo de estar fechada num lugar e de ter escolhido estar fechada nesse lugar. Tenho medo porque meus pés sentem o chão mas ele é falso. Meus pés sempre me obrigam a sentir a verdade e eu sou obrigada a dizer a eles que aquele chão não dura e nem é de terra. Tenho medo do absurdo que é sorrir e dizer "guaraná normal e sem gelo, grata" enquanto se quer dizer "que merda é essa de estar voando se não sou a porra dum passarinho?". Tenho medo porque quando acabar estarei em outro lugar. Agora, se eu pudesse escolher o maior de todos os medos, eu diria "a chance disso cair agora é muito pequena". Estou sobrevoando, sem inteligência, a água profunda que aprendi a chamar de casa mas também de intervalo. A verdadeira angústia de voar é estar acima da nossa vida. Voar é tornar nossa rotina banal. Estou voando há dias, de primeira classe, com vista para o desenho de um país que não sei o nome. Ao lado de uma pessoa que, até que enfim, não é mais uma barrinha de cereal

Centimetro

Eu gosto da linha reta cinza no seu joelho quando você coloca a calça de moletom leve. É ali que você deposita o pedaço esquerdo do seu queixo pra descansar o pensamento num gesto mais antigo. Eu gosto como as sobrancelhas tentam, apesar do momento garoto, voltar à posição ereta de quem já sabe alguma coisa. Então fica a briga do peito sobre a perna e da sobrancelha sob o mundo. No meio de tudo isso você me olha reto, direto, verde, largo. Eu chamo de azul e você briga comigo.
Eu gosto das possibilidades da sua testa. Quando seu cabelo sujou um pouco, no fim do dia, e fica um topete meio duro pra cima. E dai você é um elevador de pensamentos que cutucam como lanças de brinquedo, a voz meio abafada querendo controlar alguma sinceridade muito alta. Sua loucura chega em frases muito curtas e com a desculpa de ser uma graça. Logo depois é como o calor que cessa no fim de tarde. O banho derruba a poeira do seu dia e agora a franja fica mais próxima dos seus olhos. Você é bonito demais para alguém que pensa tanto e é quase injusto pro mundo existir alguém com tanto das duas coisas que só se tem muito de uma só.
Eu gosto de olhar sua mão enorme e pensar que você poderia me tocar mesmo que eu tivesse num quarto só meu e bem longe de um quarto só seu. O tamanho da sua mão viola meu espaço com respeito.
Eu gosto das quatro manchas vermelhas que eu deixo no seu pescoço só porque encostei o lábio. Eu gosto da sua falta de mira pra sujar a minha barriga. Eu gosto da linha infinita que vai de uma ponta de ombro até a outra ponta. Eu gosto da linha infinita que vai do seu calcanhar até o osso da bacia. Seu rascunho é o desenho de um estilista gay desejando uma mulher.
Eu gosto quando você lá das alturas me abraça e parece pequeno. Eu pergunto o que é isso que deixa seu rosto tão interessante e você explica que é mistura de italiano com gente do mato. Não tem nada de alemão? Você ri. Você sempre ri quando me aproximo demais de algo que talvez nem exista. E logo depois fala algo bem íntimo que nem era a hora. Eu gosto que você se esconde na esquina entre meu olho e meu nariz e o seu mistério não me dá aquele medo errado.
Eu gosto que todas as suas roupas são azuis mesmo não sendo. Eu gosto do seu armário de madeira que não é madeira e que combina com a escrivaninha e com a cabeceira da cama. Eu gosto do seu travesseiro com um desenhinho. Eu gosto da palma do seu pé e sei que essa frase está errada. Eu gosto que o lábio inferior desaparece um pouco quando você diz uma ironia ou quando acha que é gostoso. Eu gosto que você explode sem perder um ponto sereno e intocável nos olhos, como se nada estivesse acontecendo. Eu gosto que quando nada está acontecendo seus olhos não perdem um brilho de dor. Eu gosto que você não sabe se sabe cuidar mas queria ajudar a menina passando mal no avião.
Tem dez minutos que acordei e já gostei de você um milhão de vezes hoje. Eu gosto que você é um começo daquele tipo de flor que dispara em mim o regador assassino de um milhão de gotas d’água. Mas eu gosto mais ainda de um arco-íris pixelado que me cumprimenta discretamente da janela, como se existisse a esperança de uma planta esperta que não fica propositalmente distraída, de boca aberta, pra ser cúmplice do meu medo.

Quem ri por último, Rivotril

Minha primeira crise de pânico foi no aeroporto de Paris. Parece um jeito meio arrogante de se começar um texto, mas eu estava com o desodorante bem vencido, apavorada porque nunca tinha viajado sozinha e o macaquinho pendurado na minha mochila me deprimia demais. Ele ia e voltava numa melancolia assustada que só olhos estatelados de borracha poderiam traduzir. Me toquei que todos nós morreríamos, que minha mãe morreria, que eu morreria, que o bebê cantor Jordy talvez já tivesse morrido porque nunca mais se falou dele, e comecei a passar realmente muito mal.
Li a indicação 'sortie' como "você tem sorte, você vai sair daqui". É um trocadilho escroto pra se começar um texto, mas realmente achei que longe do aeroporto eu me sentiria melhor.
Aeroporto é um lugar horrível porque soma as cinco coisas mais terríveis do mundo: despedida, fila, ser humano, placa indicativa e esperança.
Nos minutos e meses seguintes minha vida foi uma sucessão de saídas que jamais resultavam em bem estar. Eu estava sempre prestes a correr de qualquer novo e idealizado esconderijo. Não existia mais aconchego sem vertigem nem quando eu chafurdava o nariz no meu travesseiro. O cheiro do sebo da minha cabeça, que sempre me deu uma sensação de estar seguro, era agora estranho.
Marquei um psiquiatra na alameda Itu. É mais fácil falar que é medo de avião. Avião voa, avião cai, avião é fechado, avião treme, avião tem cheiro de bafo de pum. Mas não é isso. É mais fácil falar que sou viciada em rotina, que viajar me tira da minha bolha, que ficar longe da minha casa me dá angustia, que é muito difícil pra uma pessoa com mania de higiene dormir em quarto de hotel (já pensou seriamente sobre as cortinas, o carpete e o controle remoto dos quartos de hotéis?) que meu medo de gritar nua pelas ruas aumenta consideravelmente longe dos meus amigos e parentes e hospitais conhecidos. Mas não é isso.
Minha crise de pânico mais idiota foi num supermercado. Eu perguntei onde é que ficava o melão. E me deu uma tristeza profunda fazer essa pergunta. Porque eu não gosto de melão, só compro porque é geladinho e tem a cara mais inofensiva do planeta. Melão nunca pode fazer mal. Se você tiver parindo a alma, vai conseguir engolir um quadradinho gelado de melão. Tinha o amarelo, o laranja e um mais caro numa redinha amarela. Algo sobre um cartão especial do supermercado foi perguntando e aquilo me deprimiu demais. Larguei o melão sufocado na redinha e todas as compras no carrinho. A menina do caixa gritou chamando por mim. Atravessei a rua correndo.
O elevador não demora mais do que contar até 12. Doze bem devagar. Respirando. Calma. Abri a porta de casa correndo. Sentei na privada. Não sabia se era choro ou grito ou morte ou vergonha que ia sair. Não ia sair nada, eu só queria ter a certeza que qualquer que fosse a coisa a sair, eu estava protegida no silêncio não crítico de um eco de esgoto. Me agachei no banho. Pequena, errada, tremendo, feia, possuída, incapaz. Nem melão no supermercado da frente eu conseguia mais. Queria limpar algo que não era sujeira então nem o banho tinha lógica.
Preciso acordar. Mas vai começar tudo de novo. Só mais dez minutos. Mas já são dez da manhã. Preciso acordar. Mas vai começar tudo de novo. Queria dizer que é o calor. Multidão. Gente esnobe. Gente sofrendo. Fritura. Frescura. Falta de assento. Falta de assunto. Trânsito, manobrista, fila, tudo caro, tudo demorado, tudo chato. Mas não é isso.
Estou tomando Efexor e Rivotril. Me sinto bem. Fico de olho na balança pra não passar de 53 kg. Se deixar eu chego fácil nos 58 e daí é ladeira abaixo rolando. Tenho prazer em comer. Eu que pedia sempre meia salada e ficava quebrando palitos de dente ou rasgando guardanapos em fileiras até que o tormento de comer com outro ser humano acabasse...agora tenho fome.
Alguém me conta algo muito forte e difícil e angustiante e eu aguento. Agora eu tenho uma camisinha no meu cérebro e estou imune ao vírus da dor inexplicável.
A pessoa tá se separando ou descobriu um tumor, mas eu tô de olho é no bife à parmegiana do cardápio. Eu tô é pensando no chocolate Lolo que voltou. Tenho uma camisinha no meu cérebro e isso é dar férias para o meu cérebro depois de 34 anos de bate estaca. É estar pela primeira vez num resort com mucamas pra me abanar a cada microgota de suposição.
Obrigada estupidez porque eu tenho fome e sono e sou feliz.
Já estou há um tempo conseguindo supermercado, restaurante, aeroporto, festa, controle remoto de hotel e amor. Tenho dificuldades pra sentir orgasmo mas o Jordy está vivo e tem 25 anos.

Como ser amiga de uma mulher linda

Acho que de todos os exemplos, o do cabelo é o mais cruel. Ela tem um cabelo escuro, liso, brilhante. No sol, fica meio avermelhado e as pessoas a param na rua pra perguntar "que cor maravilhosa é essa?" e ela responde "a minha...". O cabelo é tão bom, mas tão bom, que pra dar um "tchans" ela usa xampu vagabundo. E o resto dos mortais misturando dezenas de fórmulas importadas pra conseguir sair de casa sem parecer que está há séculos numa gruta de neandertais.
Às vezes ela diz "espera eu me arrumar, não posso ir assim" e eu fico olhando e pensando que nem em oito horas num salão de beleza eu alcançaria a perfeição que ela atinge apenas de regata, shortinho, cabelo preso, chinelo e pomada na cara. Ter como melhor amiga uma mulher linda é receber todos os dias um soco na boca do estômago. Você com fome, a bile te queimando por dentro...e ela vem, de pomada na cara e cabelo preso, e termina de te rasgar. E você sorri "tá, eu espero...".
Em seu currículo existencial tem sempre uma amiga que sumiu. Tenho dó. É preciso muita coragem, força e uma dose de masoquismo pra estar ao lado de tamanha beleza. Ela diz "poxa, a Aninha vivia aqui, de repente... sumiu". E eu penso "antes de desistir a pobre Aninha deve ter tentado cirurgias plásticas, terapia, botox, ácidos, dietas, exercícios...quando viu que não tinha jeito, o jeito foi fazer de conta que você não existe.".
Alguma mágica interestelar combinada com alguma natureza esplêndida fazem, diariamente, com que todos os salgadinhos escrotos, sanduíches macabros e refrigerantes grotescos que ela consome não grudem na parede de suas nádegas. Quando ela ajeita a canga na praia, pra deitar, eu me divirto com as mulheres em volta, todas com a educada exclamação "sua vaca" tatuada na íris.
Numa fase meio deprimida (sim, mulheres lindas também ficam #chatiadas), ela resolveu que só sairia na rua com a boca muito pintada de vermelho. Os cabelos levemente cacheados pelo xampu vagabundo eram rococós que emolduravam a sua boca enorme, bem desenhada e, agora, na versão cor do pecado. E sempre alguém, numa roda de amigos, pergunta "essa boca volumosa é sua?" e ela sem graça responde "é, nasci assim...". Ela sempre se desculpando por ser linda e os outros sempre fantasiando que sua beleza não é real, numa tentativa de desculpá-la. "E esses cílios longos e enormes e muitos...". "São meus...desculpa".
Mas muito mais sofrido do que estar com ela é não estar com ela. Tem sempre um desgraçado que me vê de longe e atravessa a rua correndo. "Tati, quanto tempo!!! Queria MESMO MUITO falar com você". E eu já sei que é pra perguntar se minha esteticamente afortunada amiga está finalmente solteira. E ficamos então alguns minutos num papo super profundo. Linda, né?
Nossa, muito. Bem linda mesmo. Porra, linda pacas. É, linda demais. Lindapacarai. E então eles começam a gemer. E eu já nem ligo mais, mas no fundo sempre ligo.
Certa feita fui convidada para um show do Caetano Veloso. Me arrumei toda, tadinha. Me maquiei toda, tadinha. Comprei até sapatinhos novos. Tadinha. O cara até gostava de mim, até me achava bonita, mas eu vi o momento exato em que ele, ao notar minha amiga num decote preto e rendado, dividiu o universo entre antes e depois. E eu ficaria pra sempre no antes.
Estar ao lado de minha estonteante melhor amiga é assinar pra sempre um pacto com o prêmio de consolação. É escolher pra sempre ser a garota ao lado, a amiga da, a outra. É estar tão longe do centro das atenções que preciso de uma lupa para vislumbrar o lugar dos preferidos. É ensebar a franja de tanto que dói ser invisível.
Em nome de uma vida mais digna, eu poderia, assim como fez Aninha e uma boa gama de amigas mais frágeis, ter partido. Mas o fato é que na madrugada de um voo para Londres, no qual eu (com o velho e já sabido e muito analisado pavor de aeronaves) me dopei com algumas tarjas pretas, a beldade universal em forma de amiga teve por mim uma paciência jamais vista nem nos melhores dias de mamãe. Ela acordou de duas em duas horas para ver como eu estava. E eu estava muito drogada mas pude acompanhar seu passinhos lindos pelo corredor, sua mão quente (com unhas perfeitamente abençoadas pela cor da moda) acariciando meu braço, tudo pra checar se eu me comportava como uma mulher de trinta e quatro anos ou tinha virado um demônio da Tasmânia e quebrado tudo.
Em nome de uma vida menos humilhante, eu poderia ter dito "gata, fui, parti grandão, desejo que você e a sua fantástica beleza sejam muito felizes lá na putaqueopariu" mas o fato é que o espetáculo em forma humana é a porra da minha melhor amiga. É quem me liga todos os dias pra saber como estou. É quem segura minha mão quando eu tenho ataque de pânico. É quem esteve em minha casa em todos os meus términos de namoros, gripes, colites intestinais e confusões mentais.
A mulher muito bonita sabe que, em sua maldita sina de perfeição solitária, só lhe resta ser tão legal, mas tão legal, que o legal seja ainda mais incrível que seu cabelo e sua cintura e sua batata da perna. Já à mulher "inteligentinha e engraçada", classificação que nos salva no colégio e segue nos salvando pelo resto da vida, cabe tirar o melhor proveito disso e transformar o resto em piada.

A melhor coisa que você pode fazer por um filho é ter outro

Sou filha única. Essa semana meu pai fez uns exames no hospital, nada preocupante. Fiquei na sala de espera, aguardando que ele voltasse dopado pela melhor droga do mundo: a da endoscopia (você já experimentou? É sensacional!). Enquanto esperava, fantasiei. Tenho a maldita mania de dramatizar tudo. Imaginei que ele estava internado ali e que eu esperava por notícias de sua saúde. Fui acometida por um golfo súbito e indiscreto de tristeza que fez saltar lágrimas de todos os buracos da minha face. A recepcionista me olhou assustada e, tentando doçura, avisou “é um exame muito simples, sem riscos, ele volta em trinta minutos no máximo”.
Pedi licença, sem me explicar (eu não sei me explicar, sou louca, só isso) e me tranquei no banheiro mais próximo. Chorei vinte e sete minutos ininterruptamente naquele banheiro. Senti uma solidão profunda, devastadora, invencível, arrebatadora e inexplicável. Abracei a lamúria até ser despertada por uma velhinha da fila da colonoscopia: ela precisava mais do banheiro do que eu. Quando meu pai saiu, eu estava firme e piadista. Como sempre. Sou sempre firme e piadista com meus pais. Mas por dentro eu estou morrendo. Meus pais estão com 65 e 70 anos. O mais velho é meu pai. Podem durar mais vinte anos, eu sei. Mas pela primeira vez na vida comecei a pensar na morte deles. O problema é que eles envelheceram e eu não. Eu continuo com 12, 13 anos. Firme e piadista por fora…mas assustadíssima e carentíssima por dentro.
Mas onde quero chegar com tudo isso? Não quero chegar, quero voltar. Quero voltar pro útero de mamãe e me dividir em duas. E me dar um irmão. Alguém nesse mundo que possa se trancar comigo em um banheiro improvável e chorar porque, um dia, nossos pais vão simplesmente desaparecer. Eu tenho amigos, muitos. Eu tenho uns parentes por aí também. Mas não tem jeito, eu sou ridiculamente sozinha nessa vida. Eu sei, tem gente que tem irmão e nem olha na cara dele. Eu sei, nossos irmãos de verdade são os nossos amigos. Mas não é de uma amizade pura e perfeita e presente que estou falando. Eu estou falando de existir mais alguém nesse mundo que, um dia, divida comigo essa dor incomensurável de perder um pai ou uma mãe. Saber que a história da minha infância se encerra em mim é tão terrível que acho que virei escritora por isso. Talvez se eu me contar, eu exista. Talvez se eu me lembrar, eu exista. Ter um irmão é ter, pra sempre, uma infância lembrada com segurança em outro coração.
Eu queria ter alguém que dividisse comigo todas as maravilhas e todas as desgraças de ter nascido com esse pai e essa mãe. Eu queria ter, quando meus pais se sentem sozinhos ou decepcionados ou apertados de grana, apenas metade da culpa gigantesca que é ser um filho. Eu queria ter, nos jantares alegres e também nos insuportáveis, apenas metade dos méritos. Enfim, a endoscopia não deu nada. Os exames de sangue do meu pai estavam melhores do que o meu. O manobrista do hospital deu 25 reais. O trânsito da volta estava um caos. Meu pai disse as coisas mais engraçadas do mundo no carro, por causa da melhor droga do mundo. Essas todas eram coisas que eu queria muito dividir com alguém. Sobrou pra você, leitor.