segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Tropa de Elite do bebê - 03/2008

Nada é maior que ela. Nenhum amor, nenhum desejo, nenhum plano, nenhuma sessão de meditação, acupuntura ou psicanálise. A natureza é soberana. Pobre da mente, das boas intenções e do resto todo que acha que manda alguma coisa. É ela quem me comanda. Você tem escolhido corretamente, Tatiane? Chega já me chamando do nome inteiro, ignorando que assim não gosto. Tem ou não? Não desconversa! E então eu sento com ela. Explico. Olha, querida, como é que eu vou saber, percebe? Eu não tenho bola de cristal. Ele parece gostar de mim. Tem saudades e tal. Atura aí boa parte das minhas angústias. Tem tesão e tudo. É doce na medida do que ele pode sem perder o charme. Me dá força quando bato o pé ou assino uns contratos errados. Tá tudo certo. Posso ir tranquilamente ao cinema, querida? Posso gostar dele? Não desconverse, Tatiane. Você tem ou não escolhido corretamente? 
Durante muito tempo achei que essa era a voz da minha mãe. A pessoa que há 30 anos sempre esteve a espreita pra classificar todo e qualquer homem que se aproximasse de mim de “não serve não”. Me distanciei dela. Parei de contar da minha vida amorosa. Sai de casa. Deixei claro que não queria dizer nem onde eu estava e muito menos o que eu estava fazendo. E o que aconteceu? A voz só aumentou. Em quantidade e volume. Você tem escolhido corretamente, Tatiane? Tem? Parece sim a voz de uma mãe, mas foi então que comecei a desconfiar que talvez se tratasse da mãe natureza. Ou o que chamamos de instinto. Ou um óvulo falante. Vai saber. 
Tentei então a psicanálise. Todas as quintas, às 9 e 45 da manhã, me dedico a implorar. Bertile, tira essa porra de voz da minha cabeça? É tipo assassino do John Lennon. Mate, mate, mate! É a tropa de elite do bebê. Serve pra pai dos filhos? Não sabe? Então mate do seu coração agora mesmo! E eu brigo comigo. Como é que se adivinha o futuro? Como? Como é que se chega pra alguém que está na sua vida há 3 ou 4 meses e se pergunta: “fulano, eu sei que você me ama com essa calça 36, esse sorriso largo e meu cheiro bom de creme de chocolate, mas, assim, supondo que, um dia, vai saber, eu fique grávida, inchada, enlouquecida de hormônios e com gases, por um acaso, você continuaria me amando”? 
E a caceta da voz diz que não é de se perguntar. É de se sentir. Sozinha, no silêncio, no escuro, antes de dormir. Pergunte a mim. Pergunte ao seu instinto ou vozinha de psicopata do John Lennon. E me escute. Eu sei de tudo. Eu sou a natureza. A maior e mais soberana coisa do mundo. Eu sou Deus ecoando a verdade universal do seu útero até os seus tímpanos teimosos. Vamos. Pergunte. Pergunte que eu respondo: “minha amiga, esse cara não atura nem programa chato de televisão, vai aturar uma mulher?”. Você quer ou não quer ouvir? Não, eu não quero. Eu não confio em você. Ah não confia não? Quem foi então que te disse pra você largar aquele monte de garantia furada e virar escritora? Quem foi que disse pra você sair correndo daquela festa minutos antes de entrarem os ladrões? Quem foi que disse pra você se aproximar daquelas pessoas que são grandes e bons amigos até hoje? 
Mas isso, natureza, isso é um absurdo. Porque pra qualquer homem, tenha 12 ou 56 anos, que você pergunte algo do tipo “tamo junto nessa vida ou não?”. Pra qualquer homem, natureza. Aliás, pra qualquer ser humano. Se alguém perguntasse isso pra mim. Eu sairia correndo. Porque não há nada mais chato do que pressão. Nada mais chato do que contrato, do que certeza. Isso mata o amor, o presente, o sexo, o mistério, o medo, o não saber. Os corajosos apostam. Percebe? Os corajosos apostam. Os corajosos não cobram. Eles vivem. E vão conquistando coisas. Um dia conhece um amigo. Um dia conhece uma irmã. Outro dia conhece o pai. Um dia, ops, ele esqueceu do limite do amor e dormiu na sua casa. Outro dia, ops, ele foi parar com você numa festa chata com gente que ele não tem nada a ver. E um dia, mil vezes ops, não é que vocês estão felizes há anos e resolveram passar uma semana ininterrupta juntos? E milhões de vezes ops, mas a Anita já tem dois meses na sua barriga. Nada foi dito, apenas aconteceu. É assim natureza. O natural é assim. Não? Fale alguma coisa. Natureza? 
Ela me abandona por uns dias. Sou tão sonhadora que ela cansa. Me deixa brincar de ser normal e calma e feliz e amada. Mas quando volta, está coberta de armas e balas e granadas. Tudo bem, você quer esse homem? Tudo bem, eu deixo você ficar com ele. Mas não existe carteirinha de clube sem exame de frieira, Tatiane. Não existe emprego sem entrevista. Não existe pular de pára-quedas sem pára-quedas. Qualquer aventureiro que gosta de pular no nada, gosta de vento na cara, de altura, gosta também de saber que na hora H pode contar com a cordinha. Todo mundo precisa saber que pode puxar a cordinha, Tatiane. Fico com medo, o que essa doida vai fazer agora? 
Tomo meu banho demorado. Seco o cabelo. Passo maquiagem. Assovio de alegria. Vou ver meu amor. Ele é bonito e inteligente e gosta de mim. Vou ver meu amor. Coloco roupinha meiga. O colar que ele me deu. Estou feliz. Vou ver meu amor. Dirijo até o restaurante fazendo planos para a nossa tarde deliciosa. Estou feliz. Minha voz de psicopata do John Lennon está calada e tudo indica que terei uma tarde sem problemas. 
De repente, ao chegar ao restaurante, vejo o que mais temia. Na esquina, ele me espera. Wagner Moura com sua roupa preta e a caveira no ombro. Vai começar tudo de novo. Ele me diz “vai ficar quietinha aí, não vai subir ninguém!”. É ele quem entra no restaurante. Já chega chutando o balde. Apaga essa merda de cigarro, 01! Além de ter rinite eu quero um marido que dure até o noivado dos meus netos. Apaga essa merda, 01! Não vai apagar? Então pede pra sair, 01! Pede pra sair! Mas pede alto pro mundo todo ver que você desistiu! Não, Wagner, não! Eu gosto dele! Não mate, não mate, não mate! Mas Wagner é osso duro de roer, mata um, mata geral, e também vai matar você. E ele continua. Faz o pobre marchar de madrugada na chuva, as botas apertadas, cantando “celulites, gases, estrias, angústias e carências, eu sou homem e aturo todas essas coisas com decência”. Bate na cara dele, cospe, empurra. Você quer mesmo ficar, 01? Você agüenta, 01? Não, Wagner! Não! Eu sei que ele não vai agüentar! Não faça isso! Eu sei que ele não vai agüentar! Mas Wagner precisa preparar homens para a guerra. Viver é uma guerra. Estar ao lado de uma mulher é uma guerra. Botar filhos no mundo é uma guerra. Estar ao meu lado é uma super guerra. Me deixa, Tati. É pro seu bem. Eu viro o rosto. Aperto os olhos. A maior dor do mundo. Escuto o tiro. Wagner, meus óvulos e minha mãe comemoram. Eu continuo sem saber que maravilha a vida poderia me reservar se eu não me protegesse tanto. Eu continuo sem ter a menor ideia de como se ama ou se é amada. Eu continuo acordando sozinha pra caralho. 

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