segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O coiso - 05/2008

A primeira vez que o coiso falou comigo, eu tinha três anos. Eu tava na casa de algum parente ou amigo da minha mãe e pensei “caramba, se me der um troço agora e eu ficar muito, mas muito, estranha, que será que acontece?”. Não lembro o que aconteceu, mas lembro que foi a primeira vez que o coiso falou comigo. 
Aí achei o coiso uma coisa maior bizarra, mas já era tarde demais. Ele se alojou no centro da minha existência, emanando seus raios e líquidos indesejáveis para meus órgãos mais vitais como meu fígado e meu cérebro. O coisa era tipo um sem terra tentando me deixar louca e enjoada. Era como se eu tivesse área saudável demais em mim e fosse injusto nenhuma doencinha poder plantar e frutificar nessa área tão improdutiva pela paz. Ele fincou sua bandeira vermelha e sua barba comunista em mim e gritou “vai sofrer um pouco sim, ou tá achando que a vida é só comprar Barbie?’ 
Um dia, quando eu tinha uns 12 anos, o coiso soprou no meu ouvido “já parou pra pensar que você pode ficar louca?”. Puta medo que eu tive de ser louca. Aquele monte de gente normal na hora do recreio. Gente normal que ia entrar no colegial, na faculdade, transar, namorar, sofrer, arrumar empregos, ganhar dinheiro, comprar casas, casar, ter filhos, ter netos, começar a morder o nada tipo chiclete imaginário (já percebeu que "véio" gaga faz isso?) e morrer. Tudo isso enquanto eu só ficava louca. Uma vida entregue a loucura. Nossa, que medo que eu senti. Até negociei com o coiso: “pô, o resto todo até abro mão, mas deixa pelo menos eu transar um pouxo aê, vai, depois posso até ficar louca”. 
E assim seguiram esses quase 30 anos de vida. O coiso continua lá e eu continuo aqui. A gente briga, a gente faz as pazes. Ele fica enorme quando me come demais, ele fica fraquinho e quase morre quando esqueço de lhe dar comida. Ele me ajuda a escrever melhor e viver pior. Às vezes, ele se cansa um pouco ou está dorminhoco e eu aproveito o dia pra ser feliz como nunca ou como se fosse a última vez. 
Já tentei matar o coiso com terapias, remédios, yogas, mousses de chocolate, meditações, macumbas, espiritismos, pintos, gritos, danças, pensamentos, chás, fumaças e calças Diesel de mil reais. Mas no fundo, acho que nem quero que ele morra. O coiso ta aí desde os meus 3 anos, tadinho. Ele morreria sem se hospedar em mim e eu, certamente, sentiria um vazio ou um excesso terrível de mim mesma sem ser devorada dia-a-dia por ele. 
O coiso é tipo aquele tio avô rico chato que você até queria que morresse pra curtir a vida com o que ele tem debaixo do colchão, mas ao mesmo tempo você pensa: e como é que eu vou ser feliz sem a minha tristeza? Sem o meu tio avô ranzinza que guarda alegrias em baixo do travesseiro como se o mundo jamais soubesse o que fazer com elas? Ele protege o mundo da simplicidade com medo que a maluquice saia de moda. Qualquer coiso que existe desde 1982 tem medo de sair de moda. 
Deixa o cinza lá, deixa o coiso lá. Pelo menos eu sei onde ele está, pelo menos ele mora aqui em casa. Pior é se ele morrer e resolver me assombrar. 
Hoje o coiso me fez acordar às cinco da manhã. Dei um sobressalto e acordei assustada, com medo de engolir o inseto imaginário que o coiso, mais uma vez, botou na minha goela só pra zoar comigo. Ah, esse coiso maluco. Nem dormir eu posso mais. 
Aí resolvi quebrar o pau com ele. Chamei o coiso e o coloquei sentadinho na minha frente. Falei, falei e falei. Mostrei pra ele quem manda. E sabe o que ele fez? Falou, no maior cinismo, que não tinha botado inseto imaginário nenhum na minha garganta. Eu é que tava ficando louca.

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