segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Eu odeio a Mariúsca Cristina - 10/2007

Mariúsca Cristina tem bigode. Que ela tinge com blondor vagabundo e fica parecendo um gato de rua. Ela tem uma pancinha nojenta cheia de pêlos que ela também tinge com o mesmo blondor vagabundo. Sempre que pode, ela valoriza sua pancinha com alguma mini-blusa de tecido vagabundo com brilhos e calça justérrima com barras de lantejoula. 
Mariúsca Cristina, ou Mariúúúú para os colegas (pobre nunca fala que tem amigo, só tem colega), tem um sonho: conhecer o Cristo Redentor. E nesse final de semana, Janderson, seu namorado que trabalha no ramo alimentício (ele limpa o banheiro de um restaurante), planejou pedi-la em casamento justamente no Cristo. Só que vai ser naquele cabeçudo de Serra Negra mesmo. Que é o que dá pra fazer. 
Mariúsca vai aceitar, feliz da vida e, para comemorar, o casal vai dormir em um hotel beira de estrada e pedir camarão. A última vez que Mariúúúú comeu camarão foi, foi...Na verdade essa é a primeira vez que ela come camarão. Mais tarde Janderson vai acordar com a maior dor de barriga porque o camarão tava estragado mas vai se recusar a passar mal, afinal, aquele danado do peixe custou mais de vinte reais o casal. 
E eu odeio a Mariúsca, com toda a força do meu ser. Odeio sua voz de sonsa e seu sotaque entre o analfabeto e o mongolóide. Odeio que ela rebole sua bunda gigantesca como se uma bunda valesse qualquer diploma, livro, filme, viagem ou bom papo. Ela só tem aquela bunda e um pouco de talento para tirar cutículas. Mas o que eu mais odeio nessa vaca da Mariúsca é que ela tem a única coisa que eu quis ter a minha vida inteira e jamais consegui: ela é ininterruptamente feliz. 
Janderson é baixinho, pobre, emberebado, burro e fede. Mas ela é o ama simplesmente porque resolveu que ama e nunca entrou em crise pra saber se ele é ou não bom o suficiente pra ela. Poxa, se ele a leva no Cristo e compra camarão deve ser o homem da sua vida. Seu emprego no salão de beleza de quinta categoria fica a 3 horas e meia da sua casa e paga 345 reais por mês. Mas a desgraçada faz todo o trajeto, ida e volta, na chuva ou no sol, andando ou parada, sorrindo. 
Ela nunca conheceu seu pai, nem sabe quem é. Nem por isso faz de sua vida um drama. Aliás, ela odeia filme de drama. Aliás, ela odeia filme porque dá sono. Odeia ler também. O que ela gosta mesmo é de ver os programas dominicais com bandas de pagode. Ela não sofre porque não dá para ir a Paris todo mês ou porque o novo filme do Lars Von Trier tinha esgotado logo quando chegou sua vez. Aliás, ela nem sabe direito onde fica Paris e se você falar “Lars Von Trier” para ela, vai ouvir um “vai você, sua besta”. 
Mariúsca não sabe o que é verotina. O remédio que o psiquiatra me passou pra ver se eu volto a ver um pouco de graça na vida. verotina pra ela deve ser a nova manicure. Ou, porque o nome é um pouco mais chique que Mariúsca, a nova cabeleireira. Verotina, me corta um pouco as pontas. Mas se eu explicar pra ela que na verdade é “verotina, não me deixe cortar os pulsos” ela não vai entender nada. Certamente ela me diria: “mas com uma vida tão linda, cheia de Jandersons, colegas da condução, blondor, camarões, bandas de pagode e cristos cabeçudos de Serra Negra, como é que um ser humano vai querer morrer? 
Mariúsca não sabe que mesmo eu fazendo musculação 3 vezes por semana, corrida duas e drenagem uma, eu ainda acho que deveria ter uma lei que me proibisse de andar sem canga pelas areias de Maresias. Ela também não sabe o desespero que é você ler, ler e ler, e continuar sabendo que não leu nem um quinto do que deveria ter lido pra ser alguém minimamente culto. Ela não sabe a agonia que é estar parado no trânsito da Rebouças com tantas praias lindas no Brasil e tantos cafés perfeitos na Europa. Ela não sabe como é terrível esperar que apareça alguém pra me fazer feliz se eu mesma sou incapaz disso. 
Ai, Mariúsca! Você me arrancou um bife! E ela se mata de rir da minha desgraça. 

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