segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O coiso - 05/2008

A primeira vez que o coiso falou comigo, eu tinha três anos. Eu tava na casa de algum parente ou amigo da minha mãe e pensei “caramba, se me der um troço agora e eu ficar muito, mas muito, estranha, que será que acontece?”. Não lembro o que aconteceu, mas lembro que foi a primeira vez que o coiso falou comigo. 
Aí achei o coiso uma coisa maior bizarra, mas já era tarde demais. Ele se alojou no centro da minha existência, emanando seus raios e líquidos indesejáveis para meus órgãos mais vitais como meu fígado e meu cérebro. O coisa era tipo um sem terra tentando me deixar louca e enjoada. Era como se eu tivesse área saudável demais em mim e fosse injusto nenhuma doencinha poder plantar e frutificar nessa área tão improdutiva pela paz. Ele fincou sua bandeira vermelha e sua barba comunista em mim e gritou “vai sofrer um pouco sim, ou tá achando que a vida é só comprar Barbie?’ 
Um dia, quando eu tinha uns 12 anos, o coiso soprou no meu ouvido “já parou pra pensar que você pode ficar louca?”. Puta medo que eu tive de ser louca. Aquele monte de gente normal na hora do recreio. Gente normal que ia entrar no colegial, na faculdade, transar, namorar, sofrer, arrumar empregos, ganhar dinheiro, comprar casas, casar, ter filhos, ter netos, começar a morder o nada tipo chiclete imaginário (já percebeu que "véio" gaga faz isso?) e morrer. Tudo isso enquanto eu só ficava louca. Uma vida entregue a loucura. Nossa, que medo que eu senti. Até negociei com o coiso: “pô, o resto todo até abro mão, mas deixa pelo menos eu transar um pouxo aê, vai, depois posso até ficar louca”. 
E assim seguiram esses quase 30 anos de vida. O coiso continua lá e eu continuo aqui. A gente briga, a gente faz as pazes. Ele fica enorme quando me come demais, ele fica fraquinho e quase morre quando esqueço de lhe dar comida. Ele me ajuda a escrever melhor e viver pior. Às vezes, ele se cansa um pouco ou está dorminhoco e eu aproveito o dia pra ser feliz como nunca ou como se fosse a última vez. 
Já tentei matar o coiso com terapias, remédios, yogas, mousses de chocolate, meditações, macumbas, espiritismos, pintos, gritos, danças, pensamentos, chás, fumaças e calças Diesel de mil reais. Mas no fundo, acho que nem quero que ele morra. O coiso ta aí desde os meus 3 anos, tadinho. Ele morreria sem se hospedar em mim e eu, certamente, sentiria um vazio ou um excesso terrível de mim mesma sem ser devorada dia-a-dia por ele. 
O coiso é tipo aquele tio avô rico chato que você até queria que morresse pra curtir a vida com o que ele tem debaixo do colchão, mas ao mesmo tempo você pensa: e como é que eu vou ser feliz sem a minha tristeza? Sem o meu tio avô ranzinza que guarda alegrias em baixo do travesseiro como se o mundo jamais soubesse o que fazer com elas? Ele protege o mundo da simplicidade com medo que a maluquice saia de moda. Qualquer coiso que existe desde 1982 tem medo de sair de moda. 
Deixa o cinza lá, deixa o coiso lá. Pelo menos eu sei onde ele está, pelo menos ele mora aqui em casa. Pior é se ele morrer e resolver me assombrar. 
Hoje o coiso me fez acordar às cinco da manhã. Dei um sobressalto e acordei assustada, com medo de engolir o inseto imaginário que o coiso, mais uma vez, botou na minha goela só pra zoar comigo. Ah, esse coiso maluco. Nem dormir eu posso mais. 
Aí resolvi quebrar o pau com ele. Chamei o coiso e o coloquei sentadinho na minha frente. Falei, falei e falei. Mostrei pra ele quem manda. E sabe o que ele fez? Falou, no maior cinismo, que não tinha botado inseto imaginário nenhum na minha garganta. Eu é que tava ficando louca.

Papagaio X Periquita - 04/2008

O que uma mulher inteligente, sensível, bem-sucedida, seletiva, fresca e até mesmo um pouco blasé faz quando está louca pra dar? Me digam: o quê? 
Eu não posso, com tudo o que eu sei da vida e com toda a fama de metida que criei ao longo dos últimos anos, simplesmente me maquiar como uma imbecil, botar um decote estúpido e ir caçar na noite. Com o agravante que estou no Rio e, aqui, se você sai assim de casa pode engravidar até chegar na próxima esquina. 
Eu também não posso, agora que consegui me livrar de 456 encostos paulistanos, ligar pra eles e pedir uma de peperoni. O maravilhoso “disk ex-namorado ou ex-caso que acabou em pizza” acabou com a ponte-aérea. E novos encostos no Rio estou sem tempo e sem saco de arrumar. Fora eu ainda ter um certo bode desse jeito carioca de sempre festejar a vida e sempre fazer isso ao ar livre e com barulho, o tempo que me sobra fora o trabalho é pra ler e passar repelente contra a dengue. 
No mundo perfeito estaria tudo incrível. Estou trabalhando com o que mais gosto que é escrever pra TV, moro no bairro mais charmoso do Rio (e to começando a achar que do Brasil), faço minhas caminhadas na praia quase todos os dias, tenho 3 livrarias lindas a menos de 5 quadras da minha nova casa, estou fazendo novos amigos...minha vida é quase tão perfeita quanto uma novela do Manoel Carlos. Até porque vivo encontrando ele aqui embaixo, na banca de jornal. 
Mas lá no fundo. Bem lá mesmo pra falar a verdade. Falta alguma coisa. Não bastasse conviver com um papagaio no meu cérebro 24 horas por dia me dizendo que preciso trabalhar mais, ganhar mais dinheiro, ler mais, me exercitar mais, viajar mais, estudar mais,...ainda tem uma periquita gritando mais alto para ver se abafa todo o resto “vai dar minha filha! Vai dar que é só disso que você precisa”. 
A periquita ignora tudo. Ignora que não estou mais a fim de dar pra qualquer idiota. Queria arrumar um namorado, um amorzinho, passear de mãos dadas. Ela ignora. Ela ignora que se eu for agora na padoca ali da esquina, até arrumo uma pica (ou uma picada de dengue) mas que amanhã vou acordar triste como já acordei tantas vezes. Com raiva e com nojo de ter me deixado levar por um desejo físico totalmente sem alma. 
E o papagaio manda a periquita para um banho de água fria. Diz a ela pra calar a boca que eu preciso digitar mais, cozinhar melhor, dizer algo inteligente na reunião, me concentrar na leitura. E daqui a pouco o mundo pára, é a periquita que explodiu as agendas e as regras e fez meu corpo todo congelar no pescoço de algum macho que passou na rua com andar firme e ombros largos. Minha vida atual é uma luta entre aves e eu não sinto que sou nenhuma delas. Nem tão neurótica e nem tão dada. Mas com tanta pena voando pra tudo o que é lado, fica difícil enxergar quem afinal eu sou. 
Não quero mais esse papagaio na minha cabeça. Esse pentelho que nunca está satisfeito com nada e acaba me deixando louca, com palpitações, insônias, enjôos e olheiras. Mandando eu ser mais, mais, mais. Mas também não quero esse periquita acéfala. Me mandando sair pelas ruas em busca de um preenchedor de buracos. Me mandando ligar pra ex-namorados mortos e enterrados só para não ter que “rodar a catraca”, me deixando com saudade de gente que só me fez mal, me fazendo pensar em ex-caso caído que provavelmente deve estar namorando a quarta ou quinta gorda bizarra do ano (o cara só gosta de fofas bizarras). Essa periquita burra. Me mandando olhar para o bombado cafa que passou correndo no calçadão e me olhou como se eu fosse um filet mignon. Quem em santa decência cerebral vai responder a um olhar desses? 
Cansei do papagaio e da periquita. Troco tudo pela pomba da paz. Eu não quero ser um gênio e tampouco a maior pegadora. Eu só quero ser feliz e viver tranqüila. Eu só quero fazer minhas coisas da melhor maneira possível e ter um moço bonzinho que me leve ver o pôr-do-sol no fim de tarde. 
E que essas coisas feitas da melhor maneira possível me tragam fama, dinheiro, glamour e sucesso. E que o moço bonzinho me coma loucamente. Claro. 

A grande descoberta - 03/2008

-Descobri! Descobri! 
-O quê? 
-O que eu quero de um homem. Eu finalmente descobri. 
-Um filho. 
-Não! Eu achava que era…mas no momento não tenho saco nem pra imposto de renda uma vez por ano, vou ter pra filho a vida toda? 
-Alguém pra trepar domingo...sabe aquele tesão ridículo que dá ler um livrinho depois do almoço? 
-Isso é umas. Mas não é isso. 
-Não vai me dizer que é dinheiro. 
-Não, isso é bom pra fazer piada em roteiro. Mas na vida real me dá bode. 
-Alguém pra ficar na salinha de espera do Samaritano enquanto o médico tenta separar seu dedão das costas da mão, pós surto de ansiedade? 
-Isso também parece ser algo lindo enquanto se luta por, mas quando se consegue, a vida fica chata que só. 
-Cinema? 
-Prefiro ir sozinha. Juro. É bizarro. Mas adoro ir sozinha ao cinema. 
-Sair da toca protegida? 
-Prefiro sair com as minhas amigas. Com homem o bom é ficar na cama, sair é pra caçar homem, o que não faz sentido com um. 
-Jantar? 
-Então, eu não como desde 2004. 
-Amar? 
-Hmmmm, eu já dedico isso inteiramente a mim e estou longe de me dar o suficiente. 
-Então eu não sei. 
-Eu quero tratar mal. Eu quero tratar mal. Eu quero tratar mal. Eu quero tratar maaaaaaaaaal !!!!!!!!!!! 
-Esse é o problema das mulheres. 
-Querer tratar vocês mal? 
-É, só querer. A gente vai lá e trata. Fim da obsessão. 

Tropa de Elite do bebê - 03/2008

Nada é maior que ela. Nenhum amor, nenhum desejo, nenhum plano, nenhuma sessão de meditação, acupuntura ou psicanálise. A natureza é soberana. Pobre da mente, das boas intenções e do resto todo que acha que manda alguma coisa. É ela quem me comanda. Você tem escolhido corretamente, Tatiane? Chega já me chamando do nome inteiro, ignorando que assim não gosto. Tem ou não? Não desconversa! E então eu sento com ela. Explico. Olha, querida, como é que eu vou saber, percebe? Eu não tenho bola de cristal. Ele parece gostar de mim. Tem saudades e tal. Atura aí boa parte das minhas angústias. Tem tesão e tudo. É doce na medida do que ele pode sem perder o charme. Me dá força quando bato o pé ou assino uns contratos errados. Tá tudo certo. Posso ir tranquilamente ao cinema, querida? Posso gostar dele? Não desconverse, Tatiane. Você tem ou não escolhido corretamente? 
Durante muito tempo achei que essa era a voz da minha mãe. A pessoa que há 30 anos sempre esteve a espreita pra classificar todo e qualquer homem que se aproximasse de mim de “não serve não”. Me distanciei dela. Parei de contar da minha vida amorosa. Sai de casa. Deixei claro que não queria dizer nem onde eu estava e muito menos o que eu estava fazendo. E o que aconteceu? A voz só aumentou. Em quantidade e volume. Você tem escolhido corretamente, Tatiane? Tem? Parece sim a voz de uma mãe, mas foi então que comecei a desconfiar que talvez se tratasse da mãe natureza. Ou o que chamamos de instinto. Ou um óvulo falante. Vai saber. 
Tentei então a psicanálise. Todas as quintas, às 9 e 45 da manhã, me dedico a implorar. Bertile, tira essa porra de voz da minha cabeça? É tipo assassino do John Lennon. Mate, mate, mate! É a tropa de elite do bebê. Serve pra pai dos filhos? Não sabe? Então mate do seu coração agora mesmo! E eu brigo comigo. Como é que se adivinha o futuro? Como? Como é que se chega pra alguém que está na sua vida há 3 ou 4 meses e se pergunta: “fulano, eu sei que você me ama com essa calça 36, esse sorriso largo e meu cheiro bom de creme de chocolate, mas, assim, supondo que, um dia, vai saber, eu fique grávida, inchada, enlouquecida de hormônios e com gases, por um acaso, você continuaria me amando”? 
E a caceta da voz diz que não é de se perguntar. É de se sentir. Sozinha, no silêncio, no escuro, antes de dormir. Pergunte a mim. Pergunte ao seu instinto ou vozinha de psicopata do John Lennon. E me escute. Eu sei de tudo. Eu sou a natureza. A maior e mais soberana coisa do mundo. Eu sou Deus ecoando a verdade universal do seu útero até os seus tímpanos teimosos. Vamos. Pergunte. Pergunte que eu respondo: “minha amiga, esse cara não atura nem programa chato de televisão, vai aturar uma mulher?”. Você quer ou não quer ouvir? Não, eu não quero. Eu não confio em você. Ah não confia não? Quem foi então que te disse pra você largar aquele monte de garantia furada e virar escritora? Quem foi que disse pra você sair correndo daquela festa minutos antes de entrarem os ladrões? Quem foi que disse pra você se aproximar daquelas pessoas que são grandes e bons amigos até hoje? 
Mas isso, natureza, isso é um absurdo. Porque pra qualquer homem, tenha 12 ou 56 anos, que você pergunte algo do tipo “tamo junto nessa vida ou não?”. Pra qualquer homem, natureza. Aliás, pra qualquer ser humano. Se alguém perguntasse isso pra mim. Eu sairia correndo. Porque não há nada mais chato do que pressão. Nada mais chato do que contrato, do que certeza. Isso mata o amor, o presente, o sexo, o mistério, o medo, o não saber. Os corajosos apostam. Percebe? Os corajosos apostam. Os corajosos não cobram. Eles vivem. E vão conquistando coisas. Um dia conhece um amigo. Um dia conhece uma irmã. Outro dia conhece o pai. Um dia, ops, ele esqueceu do limite do amor e dormiu na sua casa. Outro dia, ops, ele foi parar com você numa festa chata com gente que ele não tem nada a ver. E um dia, mil vezes ops, não é que vocês estão felizes há anos e resolveram passar uma semana ininterrupta juntos? E milhões de vezes ops, mas a Anita já tem dois meses na sua barriga. Nada foi dito, apenas aconteceu. É assim natureza. O natural é assim. Não? Fale alguma coisa. Natureza? 
Ela me abandona por uns dias. Sou tão sonhadora que ela cansa. Me deixa brincar de ser normal e calma e feliz e amada. Mas quando volta, está coberta de armas e balas e granadas. Tudo bem, você quer esse homem? Tudo bem, eu deixo você ficar com ele. Mas não existe carteirinha de clube sem exame de frieira, Tatiane. Não existe emprego sem entrevista. Não existe pular de pára-quedas sem pára-quedas. Qualquer aventureiro que gosta de pular no nada, gosta de vento na cara, de altura, gosta também de saber que na hora H pode contar com a cordinha. Todo mundo precisa saber que pode puxar a cordinha, Tatiane. Fico com medo, o que essa doida vai fazer agora? 
Tomo meu banho demorado. Seco o cabelo. Passo maquiagem. Assovio de alegria. Vou ver meu amor. Ele é bonito e inteligente e gosta de mim. Vou ver meu amor. Coloco roupinha meiga. O colar que ele me deu. Estou feliz. Vou ver meu amor. Dirijo até o restaurante fazendo planos para a nossa tarde deliciosa. Estou feliz. Minha voz de psicopata do John Lennon está calada e tudo indica que terei uma tarde sem problemas. 
De repente, ao chegar ao restaurante, vejo o que mais temia. Na esquina, ele me espera. Wagner Moura com sua roupa preta e a caveira no ombro. Vai começar tudo de novo. Ele me diz “vai ficar quietinha aí, não vai subir ninguém!”. É ele quem entra no restaurante. Já chega chutando o balde. Apaga essa merda de cigarro, 01! Além de ter rinite eu quero um marido que dure até o noivado dos meus netos. Apaga essa merda, 01! Não vai apagar? Então pede pra sair, 01! Pede pra sair! Mas pede alto pro mundo todo ver que você desistiu! Não, Wagner, não! Eu gosto dele! Não mate, não mate, não mate! Mas Wagner é osso duro de roer, mata um, mata geral, e também vai matar você. E ele continua. Faz o pobre marchar de madrugada na chuva, as botas apertadas, cantando “celulites, gases, estrias, angústias e carências, eu sou homem e aturo todas essas coisas com decência”. Bate na cara dele, cospe, empurra. Você quer mesmo ficar, 01? Você agüenta, 01? Não, Wagner! Não! Eu sei que ele não vai agüentar! Não faça isso! Eu sei que ele não vai agüentar! Mas Wagner precisa preparar homens para a guerra. Viver é uma guerra. Estar ao lado de uma mulher é uma guerra. Botar filhos no mundo é uma guerra. Estar ao meu lado é uma super guerra. Me deixa, Tati. É pro seu bem. Eu viro o rosto. Aperto os olhos. A maior dor do mundo. Escuto o tiro. Wagner, meus óvulos e minha mãe comemoram. Eu continuo sem saber que maravilha a vida poderia me reservar se eu não me protegesse tanto. Eu continuo sem ter a menor ideia de como se ama ou se é amada. Eu continuo acordando sozinha pra caralho. 

Muito amor - 01/2008

Para os grandes, eu penso. E viro a cabeça pra pensar em outra coisa. É mais feliz gostar, amar é pra quem pode. Mas você ou a vida ou sei lá. Insiste. E então chega enorme. E só me resta rir que nem quando vejo um bebê muito pequeno e lindo. Você ri. Vai fazer o quê? É o milagre maravilhoso da vida e eu ficando brega e cheia de medo e cheia de vontade de te contar tantas coisas e nem sei se você gosta de ouvir meus atropelos. Muito amor. E então fico querendo não trair a beleza. Com você sinto a fidelidade de ser tranquila. Um pacto de paz com o mundo. Pra não me afastar de você quando estou longe. E é impossível então que os martelos do apartamento de cima sejam realmente martelos. E é impossível que as chatices do dia sejam realmente sem solução. E os outros caras, aviso, olha, é amor. É amor. Ainda que eu quisesse, não consigo mais nem um centímetro pra você. Desculpa. O amor é terrivelmente fiel. Porque ele ocupa coisas nossas que nem existem nos sentidos conhecidos. É como tomar água morna depois de ter engolido um filtro inteiro de água geladinha. Ninguém nem pensa nisso. Muito amor. De um jeito que era mesmo o que eu achava que existia. E é orgânico dentro da gente ainda que vendo de fora não pareça caber. O corpo dá um jeito. Minha casca reclama mas incha. Tudo faz drama dentro de mim, ainda que nada seja realmente de surpresa. Sentir isso era o casaco de frio que sempre carreguei no carro. Cansado, abandonado, amassado, sujo, velho. Mas, de repente, tudo isso desistente tem serventia e a vida te abraça. O guarda-chuva do porta-malas. A bolsa falsa do assalto que minha mãe mandava eu ter embaixo do banco do passageiro. Sentir isso são os trocos que você guarda pra emergência. Amar grande é gastar reservas e ainda assim ter coragem pra dar o que não se tem. Amar grande é ter vertigem no chão mas sentir um chamado pra voar. Amar grande é essa fome enjoada ou esse enjôo faminto. É o soco do bem na barriga. É mostrar os dentes pra se defender mas acaba em sorriso. É o sal que carrego no fundo falso da bolsa pra quando eu não aguentar a vida. É o açúcar que carrego junto. É tudo que pode sair do controle. É meu corpo caindo. E as almofadas de várias cores pra me dizer que pode dar certo. É o desespero aconchegante. 

O não texto - 12/2007


Você não está lendo um texto. Você está dormindo numa rede, atravessando um farol, comprando um porta-clipes, fazendo arroz integral, prendendo os cabelos, assistindo doctor House, vendo sua cachorra espreguiçar. Sei lá, qualquer coisa. Mas você não está lendo esse texto. 
Eu também não estou escrevendo pela trigésima vez sobre gostar de alguém. E tentando entender todos os 567 contras e 876 a favor. E tentando metaforizar um cheiro, um olhar, uma frase. E tentando descrever minha dor só para dar a ela algum patamar mais interessante do que a simplicidade de uma simples dor. E tentando supervalorizar minha alegria, só para dar a ela um gosto de vitória como se jamais fosse cotidiano ser feliz. 
Eu não estou de frente para uma folha em branco. Tentando tornar meus personagens mais interessante e meus sentimentos mais nobres. Eu estou de frente para eles, vendo que meu personagem pode ser sem graça e meu sentimento pode estar morrendo. 
Este é um não texto porque cansei da minha covardia em me contar um mundo que eu invento para viver melhor. Cansei de me contar um personagem só para que suspirar não seja um simples movimento involuntário. Cansei de me contar uma história linda, só para que os dias não corram sem magia e sem a certeza de um grande final de filme. 
Imagina só que vida chata se eu, ao invés de escrever um texto de amor, cheio de esperança, profundidade, dor, maluquice, tesão, estivesse escrevendo um texto assim: e ninguém é interessante e eu, pra ser sincera, não gosto de ninguém. 
Triste, muito triste. Chato. E pior do que tudo isso: anti-literário. Como é que um escritor vai se sustentar com um coração vazio? 
Mas chega. Hoje decidi que estou prestes a assumir meu coração vazio. Não decidi isso movida por uma grande coragem ou por um momento de iluminação. Nada grandioso aconteceu. Apenas sinto que dei um pequeno, quase imperceptível, passo para uma vida mais madura. Eu simplesmente não suporto mais pintar o céu de cor-de-rosa para achar que vale a pena sair da cama. 
Não posso mais emprestar mistério ao vazio, vida ao oco, esperança ao defunto, saliva ao seco. Não posso mais emprestar meus desejos para que pessoas se tornem desejáveis. E, finalmente, não posso mais inventar amor só para poder falar dele. 
Recebo e-mails de muita gente que me fala “que coragem escrever assim sobre o amor”, “que coragem ir tão fundo na sua dor”, “que coragem sentir tantas coisas a flor da pele”. Mas pelo menos hoje quero me desafiar a fazer algo muito mais difícil. Quero não sentir nada. Quero descansar meu coração de saco cheio das minhas invenções e precisando se preparar para viver algo de verdade. 
Como será que é acordar e não esperar nada com o toque do celular, da campainha, do messenger, do e-mail, do ar, do chão? Como será que é sentir e gostar da vida pela sua calmaria e banalidade? Como será que é viver a banalidade sem achar que isso é banal? 
Este é um não texto. Pra falar de um não amor. Pra falar de um não homem. Pra falar de uma não fantasia, invenção, personagem. Esse é um texto a favor da vida, pra falar da vida. A vida com seus defeitos, cinzas, brancos, estagnações, paradas, frios, silêncios, amenidades. A vida que pode não acelerar o peito e deixar tudo com estrelinhas de purpurina. Mas que é incrível por ser real. 
A vida que não se escreve mas se vive, mesmo que isso, muitas vezes, seja ainda mais difícil que qualquer regra gramatical ou construção literária. 

Eu odeio a Mariúsca Cristina - 10/2007

Mariúsca Cristina tem bigode. Que ela tinge com blondor vagabundo e fica parecendo um gato de rua. Ela tem uma pancinha nojenta cheia de pêlos que ela também tinge com o mesmo blondor vagabundo. Sempre que pode, ela valoriza sua pancinha com alguma mini-blusa de tecido vagabundo com brilhos e calça justérrima com barras de lantejoula. 
Mariúsca Cristina, ou Mariúúúú para os colegas (pobre nunca fala que tem amigo, só tem colega), tem um sonho: conhecer o Cristo Redentor. E nesse final de semana, Janderson, seu namorado que trabalha no ramo alimentício (ele limpa o banheiro de um restaurante), planejou pedi-la em casamento justamente no Cristo. Só que vai ser naquele cabeçudo de Serra Negra mesmo. Que é o que dá pra fazer. 
Mariúsca vai aceitar, feliz da vida e, para comemorar, o casal vai dormir em um hotel beira de estrada e pedir camarão. A última vez que Mariúúúú comeu camarão foi, foi...Na verdade essa é a primeira vez que ela come camarão. Mais tarde Janderson vai acordar com a maior dor de barriga porque o camarão tava estragado mas vai se recusar a passar mal, afinal, aquele danado do peixe custou mais de vinte reais o casal. 
E eu odeio a Mariúsca, com toda a força do meu ser. Odeio sua voz de sonsa e seu sotaque entre o analfabeto e o mongolóide. Odeio que ela rebole sua bunda gigantesca como se uma bunda valesse qualquer diploma, livro, filme, viagem ou bom papo. Ela só tem aquela bunda e um pouco de talento para tirar cutículas. Mas o que eu mais odeio nessa vaca da Mariúsca é que ela tem a única coisa que eu quis ter a minha vida inteira e jamais consegui: ela é ininterruptamente feliz. 
Janderson é baixinho, pobre, emberebado, burro e fede. Mas ela é o ama simplesmente porque resolveu que ama e nunca entrou em crise pra saber se ele é ou não bom o suficiente pra ela. Poxa, se ele a leva no Cristo e compra camarão deve ser o homem da sua vida. Seu emprego no salão de beleza de quinta categoria fica a 3 horas e meia da sua casa e paga 345 reais por mês. Mas a desgraçada faz todo o trajeto, ida e volta, na chuva ou no sol, andando ou parada, sorrindo. 
Ela nunca conheceu seu pai, nem sabe quem é. Nem por isso faz de sua vida um drama. Aliás, ela odeia filme de drama. Aliás, ela odeia filme porque dá sono. Odeia ler também. O que ela gosta mesmo é de ver os programas dominicais com bandas de pagode. Ela não sofre porque não dá para ir a Paris todo mês ou porque o novo filme do Lars Von Trier tinha esgotado logo quando chegou sua vez. Aliás, ela nem sabe direito onde fica Paris e se você falar “Lars Von Trier” para ela, vai ouvir um “vai você, sua besta”. 
Mariúsca não sabe o que é verotina. O remédio que o psiquiatra me passou pra ver se eu volto a ver um pouco de graça na vida. verotina pra ela deve ser a nova manicure. Ou, porque o nome é um pouco mais chique que Mariúsca, a nova cabeleireira. Verotina, me corta um pouco as pontas. Mas se eu explicar pra ela que na verdade é “verotina, não me deixe cortar os pulsos” ela não vai entender nada. Certamente ela me diria: “mas com uma vida tão linda, cheia de Jandersons, colegas da condução, blondor, camarões, bandas de pagode e cristos cabeçudos de Serra Negra, como é que um ser humano vai querer morrer? 
Mariúsca não sabe que mesmo eu fazendo musculação 3 vezes por semana, corrida duas e drenagem uma, eu ainda acho que deveria ter uma lei que me proibisse de andar sem canga pelas areias de Maresias. Ela também não sabe o desespero que é você ler, ler e ler, e continuar sabendo que não leu nem um quinto do que deveria ter lido pra ser alguém minimamente culto. Ela não sabe a agonia que é estar parado no trânsito da Rebouças com tantas praias lindas no Brasil e tantos cafés perfeitos na Europa. Ela não sabe como é terrível esperar que apareça alguém pra me fazer feliz se eu mesma sou incapaz disso. 
Ai, Mariúsca! Você me arrancou um bife! E ela se mata de rir da minha desgraça. 

Pôr-do-sol - 10/2007

Ela está prestes a perder a graça. Mas ainda tem algumas horas. As melhores horas da sua vida. 
O banho que antecede o sexo é o melhor do mundo. Ela jamais perde tempo se sentindo por dentro, se valorizando tanto, como quando se prepara para alguém. Tem até aquele esfoliante de erva cidreira que ela só usa quando está se preparando para alguém. 
Escolher a roupa é o inverso de vestir um defunto. É como se fosse a última roupa do mundo, mas nesse caso para celebrar a vida. Uma roupa para sempre. 
Escovar os dentes também é uma tarefa mais cuidadosa quando se vai doar o gosto da vida para alguém. Ela escova a língua, bem funda, e não sente ânsia de vômito. Sente ânsia, mas é diferente. Uma explosão eminente que não vai explodir. O coração pode estourar, o estômago pode estourar, a cabeça pode estourar, mas não estoura. Ela inteira é uma festa de fogos de artifício que não acontece. Mas os olhos brilham o segundo antes de acontecer. 
Quando ela pega o elevador, é como se dissesse para cada um dos moradores do seu prédio familiar. É como se batesse na porta deles e dissesse que enquanto eles comem carne requentada com arroz sem graça. Que enquanto eles comentam que o Jornal Nacional ta um saco. Que enquanto eles atendem o telefone forçando uma simpatia aguda que soa como uma sirene de desespero. Ela vai dar. Ela vai dar. Ela vai dar. Ela vai provocar em alguém um mistério que para ela é a única coisa que importa no mundo e para eles mais alguma coisa sem importância. Apesar do mundo inteiro dizer que são os homens que dão mais importância para isso. 
O rádio nesses dias sempre colabora. Sempre toca músicas boas e aquele CD que andava sumido sempre aparece depois de alguma brecada. Aos pés da ocasião. Tudo está aos pés da ocasião. E o espelhinho então revela a mulher que ela é de verdade. Não aquela com preguiça de se pentear e com a sobrancelha por fazer. Mas a mulher que ela é. Ela nasceu maquiada, com esses olhos cheios de brilho e de vida, e essa boca querendo engolir o mundo, digerir o mundo, sentir o mundo, chupar o mundo. Nesses dias até sua coluna fica ereta. Músculos nascem, celulites morrem, cinturas afinam. Seu cheiro natural são todos esses artifícios que ela misturou para o grande momento. A mentira toda é a única verdade que existe. 
Sua rua não é apenas a rua que desemboca na rua que desemboca na avenida. Tudo é sedutor. Virar uma esquina, furar o farol, dar uma seta. Tudo compõe uma trilha de sexo. Tudo leva ao sexo. Ela vai dar. Ela vai dar. E a cidade até que é bonita com esses motoqueiros tirando finas. A cidade pulsa. E os bancos de couro ensebado dos táxis e as peruas Kombi. Tudo pulsa. Ela não tem nojo de nada. O halls preto purifica tudo, transforma o mundo em um lugar até que interessante e prepara seu hálito para o único momento que realmente importa nesses dias chatos. O momento em que ela vai arrancar tudo o que a protege de mergulhar em si mesma. Ela vai mais uma vez amar sozinha, mas tudo bem. Todos os outros dias que chegam para curar esse momento, nada mais são que a espera e a preparação para outro machucado. 
É como se ela fosse um ponto de interrogação incompleto. E precisasse daquele furo que vai ao final do ponto de interrogação. O pingo final de uma dúvida que começa nela e não termina em lugar nenhum. Para ela então poder ser inteira uma dúvida. Tão inteira que completa. E sentir o mistério da vida. E não entender nada mas estar no mundo. Ser mundana. E voar. E tudo isso de tão absurdo e maluco, vazio. E a dor do vazio. E tudo isso que vem depois. Mas ainda não é a hora. Por enquanto ainda tem graça dizer coisas malucas e forçadas e verdadeiras ao estilo “hoje acordei assim”. Por enquanto tem graça renegar um abraço ou abraçar com desespero. Por enquanto tem graça molhar o lábio inferior e prolongar ao máximo os segundos. 
E ela jura que todos que estão parados no trânsito sabem como ela cheira bem. Ela jura que todos sabem o quanto ela está limpa porque não existe limpeza maior do que os minutos que antecedem sujeira. Ela jura que vai transar com o mundo e o mundo vai transar com ela. Rússia, Holanda, Japão, todos sabem onde ela está indo. E todos vão com ela. Não existe poucos amigos, não existe “pequenices” de alma, não existe chorinhos baixos. O que existe é um mundo que pulsa no meio de suas pernas e o meio das suas pernas pulsando no mundo. É o minuto da alegria mais plena e da solidão mais povoada. Ela vai dar. Ela vai dar. 
O porteiro poderia morrer por ela. A mulher no elevador poderia mata-la. Ela é causadora de grandes catástrofes mas também poderia salvar o mundo. 
Quando ele abre a porta, seu coração se parte em dois. Ela sabe que se trata do ser mais amado do universo. Mas sabe que também se trata de mais um ratinho de laboratório que tem vida e importância curtas. Ela vai precisar ama-lo desesperadamente para conseguir se abrir. Mas ela sabe que isso é apenas uma droga barata e não proibida que ela toma para sentir a vida e poder comer a si mesma. E depois vomitar a si mesma. E resgatar seus pedaços azedos como um porco faminto. Ela sabe que tudo só acontece dentro dela. 
Ela está prestes a perder a graça. Mas ainda faltam alguns minutos. Os melhores minutos da sua vida. Naquele minuto que antecede uma coisa tão banal quanto encaixar duas pecinhas de lego para formar uma ponte, ela é a única mulher do mundo. E se ela disser que quer morrer, comer um abacaxi ou escutar o som de um dedão do pé estalando. Ela será a única mulher do mundo. A melhor do mundo. E então a vida, maravilhosa como é, diz baixinho no ouvido dela: ir embora agora, sendo a única mulher do mundo, mas não trepar com esse cara. Ou trepar com esse cara e ser apenas mais uma mulher do mundo. 
E então, apenas porque também precisamos da banalidade para não explodir com a vida, ela abre as pernas e perde totalmente a conexão com a Rússia, a Holanda e o Japão. 
E as ruas são apenas ruas. E os motoboys, e as peruas Kombi, e os taxistas. E os faróis infinitos. E tudo leva a um caminho longo de queda sem almofadas. E o espelhinho revela uma mulher que precisa de banho e demaquilante. O CD some novamente e o rádio toca mais uma modinha idiota. E ela é só mais uma. Mas pelo menos ela deu. Ela deu. Ela deu. 

Delivery - 09/2007

Quando paramos em frente ao flat, lembro que ainda perguntei mais uma vez se era isso mesmo o que ela queria. Ela apenas me olhou e sorriu triste. Como quando a pessoa está cansada de saber da dor do dia seguinte mas insiste em congelar um dia. E saiu do carro com delicadeza e uma esperança infantil de eternizar segundos. 
Olhei ela entrando, de longe. Aquilo foi terrível. Queria sair gritando e agarrá-la pelo pescoço. E dizer mais uma vez que ela não precisava disso. E que uma hora tudo iria ser tão lindo e saudável e preenchedor. Mas a deixei ir, como uma mãe que sabe que o filho vai sofrer mas acha inevitável abrir as pernas para libertá-lo. 
Três coisas facilitaram que ela achasse a vida muito divertida: o óculos escuro vagabundo que ela ganhou no casamento, as havaianas pra quando o pé cansasse e o fato de que a noite ia começar quando o dia já estava para nascer. 
No elevador ela se achou absolutamente linda. Coisa que só achava nessas situações em que ninguém poderia saber o que ela estava fazendo. Ela se transformava em personagem para enganar a vida chata e todas as suas imperfeições. 
Tive dó quando vi a alegria que ela sentiu ao ver aquele corredor com dezenas de números. Era como uma gincana inocente onde só uma porta tinha o bilhete premiado e ela era a única que sabia o número. 
Depois esperei, do lado de fora. Tudo virar frio. Ela se cansar do frio. Ela procurar o controle remoto do ar condicionado e não encontrar e morrer de frio. E querer um pedaço da coberta mas não ter mais permissão para querer. E querer um abraço mas não ser mais permitido ganhar isso. E querer pedir ajuda em relação ao frio mas não ser mais permitido pedir ajuda. E querer ser vista mas não ser mais permitido existir. 
Esperei ela finalmente cansar do frio e se levantar sem fazer barulho. E enfrentar o dia seguinte, com tudo o que ele tem de real. A realidade cheia de pontas cortantes. A realidade que transforma uma mulher cheia de sonhos e carinhos e algumas boas frases em mais uma pizza que esfriou. Um delivery vencido. 
E esperei sofrendo o momento em que ela se olharia no espelho e diria com os olhos borrados que sua ficha caiu. E esperei ela resgatar pelos cantos não íntimos, em silêncio e sem cúmplice, tudo o que era seu com medo de deixar algum rastro ou parecer boba. 
Esperei sentadinha do lado de fora, com o coração na mão. Com medo dela fazer alguma besteira como beija-lo quatorze vezes mesmo ele sendo mais um desses caras que não vão sequer até a porta pra se despedir ou ligam para saber se o táxi chegou direito. 
Ainda assim, ela é uma dessas garotas que beijam mais um desses caras quatorze vezes. Porque um desses caras, que dá vontade de beijar quatorze vezes, aparece a cada quatorze caras. E ela se despediu de uma felicidade e uma gentileza que existiram apenas na sua emoção. O que já era algo nessa vida chata cheia de gente chata. Alguém que despertava a sua emoção. 
E ela finalmente saiu. Ela e seu sorriso triste novamente. Agora um pouco mais triste mas ainda assim iluminado. Ela e sua vontade de tomar banho quente e comer pão de queijo e voltar a ser apenas uma menina que sonha com alguém para se fazer isso junto, pela manhã. Com a maquiagem borrada e o vestido de ontem. E medo de ser confundida com puta na recepção do flat. E com medo dela própria, mais tarde, se confundir com puta. 
Ela e seus óculos de brinquedo para esconder de brinquedo uma emoção de brinquedo. Usando sua havaianas para uma alma cansada. Achando graça que o dia terminava justamente porque começava de novo. 
No Ibirapuera as pessoas corriam numa maratona. Cheias de certeza. Ela olhou tudo aquilo com um sono profundo. Enquanto alguns corriam, ela só queria parar. Parar em algum braço, em algum abraço. Parar finalmente. E tomar o banho quente e comer pão de queijo. E ter abraços permitidos para sempre. E poder reclamar do frio para sempre. Ela só queria se sentir quente, ainda que fosse de despedida. 
Ela sabia que era amor de um dia e tinha topado, mas não aceitava que o amor de um dia tivesse acabado sem amor. 
Foi então que eu perguntei de novo, se era isso mesmo o que ela queria. E ela respondeu que não, não era. Mas na vida só existia uma coisa mais forte do que querer: a própria vida. 
Ela adormeceu no táxi, cansada o suficiente pra não se sentir suja e boba o suficiente pra engolir a saliva feliz, como se ainda pudesse reviver algo que havia morrido tão rápido. Achei aquilo lindo, achei que aquilo era a vida. E acabei dando finalmente o abraço eterno que ela tanto queria e que eu tanto queria. Ainda que se perdoar não melhore a solidão de ninguém. 

Me deixem com a minha tristeza - 09/2007

É com a minha tristeza que acordo todos os dias. Penso isso e deixo escapar um enorme sorriso enquanto faço o primeiro xixi do dia. Aí penso, sempre as exatas 8 e 35 da manhã: se eu fizer agora uma vitamina e ler o jornal, vai ficar tudo bem. 
Depois coloco meio triste a minha roupa de ginástica e desço cantando e tomando uma caixinha de água de coco. Me engano um pouco que malho muito. E nisso há uma certa tristeza. Mas acho graça. 
Volto sabendo que nunca vou ser a gostosona que sempre vai roubar os homens mais superficiais de mim. Volto sabendo que ainda assim, por alguma maluquice da minha cabeça, vou continuar atraída pelos homens mais superficiais. Isso me deixa superficialmente triste. E então tomo meu banho rindo de pensar tanta coisa maluca. 
Escolho alguma roupa que me traz alguma tristeza. A calça do dia que voltei sozinha pra casa depois do filme bonito. A camisa do dia que ninguém me enxergou e ninguém quis meu bem. A calcinha que eu comprei para ser amada e mais uma vez só fui usada. O sapato que quis pisar nele mas só levou uma rasteira. Penso então que vou dar mais uma chance para essas roupas me fazerem muito feliz, assim como me fizeram no dia que ainda tinham etiqueta com preço. Sorrio para a segunda chance da vida. Minha e das minhas coisas. 
Meu carro me deixa triste. Preto suja muito e não agüento mais esse carro velhinho e barulhento. Tenho quase 30 anos e nenhum centavo no banco. Fico muito triste. Resolvo então colocar o David Bowie pra me alegrar e me dizer, sem querer dizer, que minha vida é sempre uma montanha russa e daqui a pouco to subindo de novo. Brisa na cara e tudo mais. Pra depois cair de novo e até nisso sentir prazer. Tudo é prazer. Vamos em frente. Eu e o carro. 
Não presto atenção em nada do que esses jornalistas falam. Sinto saudade de meus amigos publicitários e fico triste de novo. Fácil de resolver: mando e-mail pra todos eles pedindo um freela. Frella arrumado já pra hoje mesmo. Não entendo nada que esses publicitários falam. Fico triste e com vontade de fazer alguma coisa para uma produtora. Já para o final do dia arrumo uma parada numa produtora. Não entendo nada que esse povo de cinema fala. Fico triste e sinto saudades da minha cachorra. E ela então encerra meu dia me lambendo e me deprimindo: um dia ela vai morrer. E então, a sensação do fugaz me faz querer amar muito tudo. Beijo a cachorra na boca e pego bereba. E a bereba me deprime. Mas a bereba também passa. E até que o dia de hoje foi bom. E até que eu ganhei um dinheirinho. E até que sou uma mulher de quase 30 anos com algum dinheirinho. 
Ver tv me deprime, então resolvo ler. Que me deprime. Então resolvo dançar de pijama na cozinha. Que me deprime. Então resolvo ver tv. Que me dá sono. E sono não me deixa triste. Mas sonhar me deixa. Porque todas as noites eu sonho que estico o braço e encontro as costas dele. E enfio a mão pela camiseta amarela e faço carinho nas costas dele, onde tinha um pouco de pêlo quente. E ele só gemia ao estilo nenê e não ao estilo sujo. E o mundo ficava tão limpo. E desde que ele se foi o mundo ficou sujo. E então fico muito, muito, muito, muito triste. 
Trato então de sonhar algo bizarro ao estilo eu na dança do gelo do Faustão vestida de Barbie ou eu indo trabalhar de novo sem calça ou eu no ginásio fazendo cocô lá na frente da sala enquanto todo mundo apontava e ria. E dou risada sonhando. Fico orgulhosa de mim: minha capacidade para transformar a tristeza em alegria é tão grande que até o inconsciente pode ser enganado. 
E então, só porque outro dia feliz me espera, acordo triste novamente. 

Só mais um pouco de cala a boca - 09/2007

Vai lá dentro do chalé, vai. Coloca o shortinho. O chinelo verde. Tira essa sunga molhada. Quer ajuda? Posso te ver tomar banho? Posso jogar água importada em você? Posso te ver contra a luz do sol? Deixa? 
Fica sério de novo. Isso. Posso fazer um ensaio fotográfico com você? Jogado, descabelado, na rede. E você ainda é o homem mais lindo do mundo. No canto da foto dos amigos bêbados, e você é o homem mais lindo do mundo. Com gorro, no meio da confusão do frio. Escondido embaixo de tanta roupa. No fundo do mar. No escuro. De costas naquela festa chata. Meu Deus, como você é lindo. 
Não sei direito o que é aurora boreal, mas acho que deve ser algo lindo que se formava enquanto você era feito. Não sei direito o que é isso que eu sinto por você. Mas como é maravilhoso fumar você, cheirar você, tomar você, injetar você. Calar a boca. 
Sei que é por pouco tempo. Somos plantas diferentes. Pássaros diferentes. Estamos experimentando nossos mundos tão excêntricos. Muito em breve vamos nos afastar com a intensidade de opostos tão óbvios. Você vai ser infinitamente o garoto mais lindo do mundo para suas garotas infinitamente mais lindas do mundo. Todos com dezenove anos. Todos lindos contra a luz do sol. Todos com cabelos de comercial. Todos idiotas e corados e lindos e sem saber o que fazer com muita beleza e pouca idade. E eu vou continuar esperando o meu tipo charmoso, mais velho, mais feio que você, melhor do que você. 
Mas por agora. Me dá mais um pouco desse cala a boca, vai. Vai lá dentro do chalé, vai. Coloca o shortinho. O chinelo verde. Me pergunta uma daquelas coisas para eu dar uma daquelas respostas que você morre de rir. Me deixa pirar no seu céu da boca escancarado. Você se joga pra trás. E só porque você e o mundo inteiro têm certeza do quanto você é lindo, você faz questão de sempre se largar no mundo. É a liberdade que só tem quem é infinitamente lindo ou infinitamente feio. Você é livre do mais ou menos e isso me enche de algo que me faz querer cantar pra sua beleza. Eu sou mais ou menos mas nesse segundo, já que comprei sua beleza, sou a mulher mais linda do mundo. Vai, passeia no meu carrinho de supermercado. Me deixa ser linda vestindo você. Entra em mim e me enche da sua vida fácil. 
Outro dia me peguei pensando um absurdo que me fez feliz. É triste, mas me fez feliz. Pensei se isso que você faz, de ficar horas comigo depois de ter ficado horas comigo. Se isso é algum tipo de caridade sua. Porque, veja bem. Somos plantas e pássaros diferentes. Eu sou a bonitinha que lê uns livros e vê uns filmes. Você é essa força absoluta e avassaladora que jamais precisará abrir a boca para impor sua vitória. 
Você coloca aquele moletom cinza com dizeres do surf e eu experimento um guarda-roupas inteiro pra ficar à sua altura. Você é essa força da natureza que deu certo. Eu gasto metade do meu salário pra me sentir como você deve se sentir escovando os dentes. Pra me sentir cabendo no mundo que deu certo. 
Abaixa esse queixo menino. Abaixa esse nariz. Anda rastejando com esse chinelo verde e o queixo no alto. Você sabe que é superior. Você sabe que pode fazer tudo devagar, o mundo te espera. O resto é platéia. Você sabe que faz as pessoas tremerem a voz. Você sabe que deixa apenas duas escolhas pras pessoas: te idolatrar ou sair correndo. E como eu não sou mulher de correr da dor, deixo ela entrar as pouquinhos, esbugalhar meus sentidos, enfraquecer meu orgulho. Quando vejo, estou calada novamente, ouvindo o que você não diz e vendo o que você não faz. Apenas curtindo a limitação profunda e gigantesca da sua beleza esmagadora. Feliz em ser uma formiga que carrega milhões de plantas nas costas só para ver algum esforço meu alimentando você. 
Vai, faz o bico de burro quando alguém não compra a sua forma. Faz os olhos laterais pra me convidar pra mais uma das suas aparições. Faz o dentinho pra frente pra me pedir mais um pouco. Faz o silêncio pra ganhar de vez. De mim e do mundo. 
Não existe não morrer um pouco quando você chega. E de vez em quando tudo o que a gente quer é mesmo dar um tempo da vida. 

Uma campanha que desce redonda - 08/2007

Sabe esse comercial em que os caras tomam choque na geladeira por causa de algumas cervejas? Achei bom pra cacete. 
Nenhuma bunda, nenhum apelo machista, nenhuma mulher em posição de gostosa submissa ou gostosa disponível. Muito pelo contrario: elas tiram até sarro dos caras. Eles são uns babacas! Mas tiram sarro daquele jeito que os próprios caras gostam. Uhu! Somos uns babacas mesmo! Uhu! E andamos em bando e tomamos uma cervejinha falando besteira! Uhu! E esquecemos de qualquer dor quando estamos juntos e fazemos o que gostamos! 
É a prova viva (e a cores) de que dá pra fazer propaganda boa sem recorrer à fórmula “se eu beber a cerveja certa, lá naquele boteco firmeza, com aquela trilha chega mais, naquele dia batuta, pego uma mulher gostosa. Até porque bêbado qualquer uma fica gostosa”. 
Grupinhos de amigos de infância que se amam, se bastam, retroalimentam seus egos e que, vez ou outra, lembram de dividir seu tempo com mulheres é muito mais a realidade da galera que se junta pra tomar uma cervejinha do que aquelas mesas povoadas de mulheres gatas uma pra cada homem. E quem disse que homem quer tanta mulher assim pra tomar umas com os amigos? Me desculpem, mas homem gosta é de homem! Quem gosta de mulher é multinacional de cosméticos. 
Não sou do tipinho feminista não. Muito pelo contrario. Eu mesma já abusei do “sex sells” algumas vezes para promover meus textos. Portanto não escrevo esse texto em defesa das mulheres, dos consumidores inteligentes ou qualquer coisa do gênero. Até porque não tenho nada contra a exposição de mulheres gostosas (vejam bem: eu escrevo para a VIP!) nem com as próprias mulheres gostosas (adoraria que todas passassem a um raio de mil quilômetros quando estou com um cara, mas isso é detalhe). 
Também não escrevo esse texto como publicitária não. No momento, como quem lê essa coluna sabe, to apostando mais em livros e roteiros de dramaturgia e muito menos em propaganda. Acabei me enchendo de tudo e de todos desse mercado. Nada pessoal, eu que sou mala mesmo. 
E pra complicar, também não escrevo como consumidora de cerveja. Não gosto de nenhuma marca e acho péssimo mulher com aqueles soluços “implosivos” e fermentados. Eu só bebo vinho. E de preferência sozinha, que é pra ninguém me encher com o fato de eu ficar muito filosófica e um pouco tarada (não necessariamente nessa ordem) com meia taça. 
Então por que raios escreves esse texto, ó colunista prolixa? Sei lá. Pode ser porque o comercial me deixou feliz? Que comercial bom! Aliás, que campanha boa! Depois uma loira gostosa (e eu pensando que estava tudo indo por água abaixo) virou um gordo peludo e ainda tomou um peteleco porque tentou tomar a cerveja do cara: mulher de amigo meu que toma a minha cerveja pra mim é homem!. 
Eles acertaram de novo! Homem não toma cerveja pra pegar mulher, toma justamente pra não lembrar que a natureza pede a ele, carinhosamente, por obséquio que, um dia, caso ele não esteja fazendo nada melhor, talvez com todos os amigos casados, que ele, se não for se incomodar muito, lembre de dar continuidade a espécie e, de repente, mas olha, sem pressa, tá? Resolva ficar com uma mulher. 
O típico e caricato universo masculino é realmente algo um tanto quanto idiota. Um universo difícil de entender, aceitar e, principalmente: um lugar onde a felicidade de uma típica e caricata mulher (no caso, eu) é quase impossível. 
Já uma campanha inteligente que tira sarro disso de maneira leve e realista e que, de brinde, ainda não coloca nenhuma bunda sacolejando numa praia insuportavelmente lotada de gente igualmente bunda sacolejante , me faz achar que as coisas, afinal, não são tão ruins quanto parecem. Não é exatamente beber o melhor remédio, e sim, mais uma vez, rir! 

O mau elemento - 07/2007

Eu olho pra sua tatuagem e pro tamanho do seu braço e pros calos da sua mão e acho que vai dar tudo certo. Me encho de esperança e nada. Vem você e me trata tão bem. Estraga tudo. 
Mania de ser bom moço, coisa chata. 
Eu nunca mais quero ouvir que você só tem olhos pra mim, ok? E nem o quanto você é bom filho. Muito menos o quanto você ama crianças. E trate de parar com essa mania horrível de largar seus amigos quando eu ligo. Colabora, pô. Tá tão fácil me ganhar, basta fazer tudo pra me perder. 
E lá vem ele dizer que meu cabelo sujo tem cheiro bom. E que já que eu não liguei e não atendi, ele foi dormir. E que segurar minha mão já basta. E que ele quer conhecer minha mãe. E que viajar sem mim é um final de semana nulo. E que tudo bem se eu só quiser ficar lendo e não abrir a boca. 
Com tanto potencial pra acabar com a minha vida, sabe o que ele quer? Me fazer feliz. Olha que desgraça. O moço quer me fazer feliz. E acabar com a maravilhosa sensação de ser miserável. E tirar de mim a única coisa que sei fazer direito nessa vida que é sofrer. Anos de aprimoramento e ele quer mudar todo o esquema. O moço quer me fazer feliz. Veja se pode. 
E aí passa a maior gostosa na rua e ele lá, idolatrando meu nariz. E aí o celular dele toca e ele, putz, perdeu a ligação porque demorou trinta mil horas pra desvencilhar os dedos do meu cabelo. Com tanto potencial pra me dar uns tapas, o moço adora me fazer carinho com a ponta dos dedos. 
Não dá, assim não dá. Deveria ter cadeia pra esse tipo de elemento daninho. Pior é que vicia. Não é que acordei me achando hoje? Agora neguinho me trata mal e eu não deixo. Agora neguinho quer me judiar e eu mando pastar. Dei de achar que mereço ser amada. Veja se pode. Trinta anos servindo de capacho, feliz da vida, e aí chega um desavisado com a coxa mais incrível do país e muda tudo. Até assoviando eu tô agora. Que desgraça. 
Ontem quase, quase, quase ele me tratou mal. Foi por muito pouco. Eu senti que a coisa tava vindo. Cruzei os dedos. Cheguei a implorar ao acaso. Vai, meu filho. Só um pouquinho. Me xinga, vai. Me dá uma apertada mais forte no braço. Fala de outra mulher. Atende algum amigo retardado bem na hora que eu tava falando dos meus medos. Manda eu calar a boca. Sei lá. Faz alguma coisa homem! 
E era piada. Era piadinha. Ele fez que tava bravo. E acabou. Já veio com o papo chato de que me ama e começou a melação de novo. Eita homem pra me beijar. Coisa chata. 
Minha mãe deveria me prender em casa, me proteger, sei lá. Onde já se viu andar com um homem desses. O homem me busca todas as vezes, me espera na porta, abre a porta do carro. Isso quando não me suspende no ar e fala 456 elogios em menos de cinco segundos. Pra piorar, ele ainda tem o pior dos defeitos da humanidade: ele esqueceu a ex namorada. Depois de trinta anos me relacionando só com homens obcecados por amores antigos, agora me aparece um obcecado por mim que nem lembra direito o nome da ex. Fala se tão de sacanagem comigo ou não? Como é que eu vou sofrer numa situação dessas? Como? Me diz? 
Durmo que é uma maravilha. A pele está incrível. A fome voltou. A vida tá de uma chatice ímpar. Alguém pode, por favor, me ajudar? Existe terapia pra tentar ser infeliz? Outro dia até me belisquei pra sofrer um pouquinho. Mas o desgraçado correu pra assoprar e dar beijinho.